Ninguém me tira a idéia de que os edifícios têm sentimentos. Não consigo manipular as palavras a ponto de conseguir esclarecer essa minha perspectiva. Sempre haverá dúvidas nessa opinião. Mas acredito piamente.
Não foi uma, nem duas vezes, que a porta do meu quarto se fechou quando estava ventando. E nem foram poucas as vezes em que o quarto estava na temperatura ideal para dormir numa noite fria. E eu nem digo das vezes em que, quando viajei, ao abrir a porta de casa, sinto uma fragrância de infância e saudade que me envolvem de tal maneira, que por alguns segundos eu desejo nunca ter saído do meu domicílio. Minha certeza reside na crença de que alguns dirão que existem explicações causais para tais fenômenos acontecerem. O vento forte fecha a porta que não está presa. O quarto fechado durante o dia se mantém aquecido. O cheiro de “saudade” nada mais é que o ar parado... e por aí vai. Entretanto, eu ainda acredito na idéia de que os edifícios têm sentimentos.
Por vezes, esses sentimentos são demonstrados de forma que não nos agrada totalmente. Quando volto de viagem a casa me castiga - pela saudade que sentiu de mim - com toneladas de poeira sobre os móveis, aranhas com seus filhos e suas teias, e o tal cheiro de infância. Parece que as várias camadas de sujeira são lágrimas de solidão que escorreram pelas paredes, teto e chão.
Mas, ao mesmo tempo que falamos de poeira e lágrimas, hoje quero comentar de um fenômeno, e um sentimento, um pouco mais quente. Dia 12 de fevereiro, domingo, o nosso querido Cine Teatro Ouro Verde expressa seu sentir através do fogo. Incendeia-se. O fogo começa por cima, e destrói tudo o que vê embaixo. As chamas o dominam e o envolve por inteiro. Seu interior é totalmente consumido. Cinzas... é tudo o que resta. O motivo? Mesmo que os peritos desconheçam, eu tenho um palpite: saudade! Assim como minha casa se manifesta com aromas e matéria, o Ouro Verde, com saudade do público, se manifesta com fogo. O fogo – em alguns “sistemas cultuais” – significam passagem, prova; se submetem ao mesmo como teste de coragem, força, resistência, perseverança, refinamento, desenvolvimento, etc. Foi no fogo que o Ouro Verde encontrou soluções para atrair e – quem sabe? – refinar o público londrinense. Talvez ele queira nos dizer para sermos mais sensíveis, mais dispostos, disponíveis a admirá-lo com tudo o que ele pode oferecer; talvez queira homenagear todos os momentos culturais que ali foram presenciados e vividos – quis oferecer para nós, como sacrifício vivo, todos os anos de experiências “culturais” ali provadas! Quis levar aos céus as alegrias, as tristezas, as saudades, as nostalgias, as gargalhadas, as surpresas, os aplausos, as valsas, as peças, os personagens, a música, a poesia, as sonatas, as orquestras, as óperas, os alunos, os espectadores, o público, as fotos, as esperanças, as raivas, as angústias, as dúvidas, certezas, encontros, distâncias, intercâmbios, nacionalidades, línguas, símbolos, culturas enfim! Foi, talvez, um ato de desespero. Quis que todos olhassem para ele. Quis que, ao avistarem aquela enorme fumaça preta no céu, se lembrassem que existe uma cultura que está “morrendo”. Uma cultura que não recebe atenção. Uma cultura que não está “vivenciada”. Mas calma, meu queridos, não pensem que falo do teatro, de música, de clássica ou qualquer outra coisa do tipo: eu digo do cotidiano, da vivência, dos hábitos, dos costumes nossos de cada dia. Falo da nossa cultura. Falo da nossa maneira de se relacionar com o mundo, e ver esse mundo. Falo da forma como sentimos, como agimos, como vivemos no mundo. Isso porque o que era representado ali, naquele palco, era a nossa vida, era a nossa cultura!
O Ouro Verde, carente e triste de perceber que não ligávamos para nosso modo de agir, resolver queimar. Queimar para ser lembrado. Queimou na esperança de renascer. De ser Fênix. De nascer das cinzas e ser novo; de despertar o novo; de incentivar o inédito; de fomentar o “jamais visto”. Fez na esperança de que prestemos atenção na invenção que vivemos todo dia; criação e recriação da cultura em cada nova ação que realizamos. Fez para que ao viver, vivêssemos cada vez mais.
Ouro Verde, você “morreu pela cultura”! E eu creio que, quando ressurgir, você encontrará uma “consciência cultural” mais concreta, mais verdadeira, mais “vivida”.
Hoje eu choro, mas amanhã quero rir em um dos seus adoráveis e confortáveis espetáculos! Ontem, hoje e sempre, Cine Teatro Ouro Verde!
2 interpretações:
um vez ouvi dizer que a fumaça é o meio de comunicação com o divino - para algumas tribos indígenas. ouro verde transmutou-se em mito quando se fez fuma-se. e esse mito deve dar sentido ao que faremos de agora em diante.
tô contigo e não abro, meu chapa.
BRAVO! Não digo a você, mas ao Ouro Verde que nos trouxe esse espetáculo de passagem, esse ritual de desespero. Das cinzas renasça! :0)
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